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Conheça o escritor Vinícius Dramoro

"Estude, aprenda, teste, experimente, mas sempre se lembre que o seu primeiro leitor é você mesmo."

Vinícius Dramoro nasceu no Rio de Janeiro no bairro Zumbi e cresceu na Baixada Fluminense. Lá, ele se apaixonou pela primeira vez pela escrita nacional de terror ao experienciar o cotidiano carioca que por muitas vezes é mais estranho do que a ficção. Atualmente ele mora em Brasília e divide seus dias entre sua vida como educador de idiomas e autor de livros. Seu sonho é incentivar a escrita nacional de horror e fantasia, e mostrar que não há monstros com maior potencial para crueldade do que as próprias pessoas.

Dando sequência para nossa série de entrevistas com autores da Palavra & Verso, trazemos aqui um pouco da trajetória literária de Vinícius, bem como suas inspirações, seus próximos projetos, etc. Confira:





Palavra & Verso - Como é a sua rotina de escrita? Você estabelece metas para si mesmo? 

 

Vinícius Dramoro - O feito é sempre melhor do que o perfeito. 

Uma vez, ouvi o autor Raphael Montes dizendo que temos que sempre deixar nossa “máquina azeitada”. Ele diz que escrever tem que ser uma rotina. Então, mesmo quando eu não estou inspirado, eu estou sempre escrevendo. Seja uma linha ou um parágrafo. 

Quando tenho uma ideia, eu a escrevo e tento entender que mensagem ela está me passando. Escrevo sobre o que estava sentindo quando a tive, sobre o que ela me faz pensar e que tipo de história eu gostaria que ela se tornasse. 

Esse processo me ajuda a desenvolver as ideias e entender qual direção eu quero seguir. Então eu crio pequenas metas para que eu nunca pare. Se todo dia eu puder responder pelo menos uma pergunta sobre as minhas ideias, eventualmente eu vou estar preparado para desenvolver o enredo. 

O mais importante é nunca deixar de se conectar com as suas histórias, mesmo nos dias em que você não conseguir adicionar uma linha a elas, escreva sobre elas. 

É um relacionamento. 

 


Palavra & Verso - Quais são os seus escritores favoritos, bem como os autores que influenciam a sua escrita? Cite alguns livros que você indicaria para nossos leitores. 

Vinícius Dramoro - Não brasileiros os meus favoritos são Rick Riordan, Stephen King, Joe Hill e Neil Gaiman. Mas ultimamente eu tenho lido muito mais livros brasileiros e tenho ficado muito apegado às obras de Raphael Montes e Carol Chiovatto. 

Tenho tentado dar muito mais prioridade para livros nacionais e tenho conhecido cada vez mais autores brasileiros de diversos gêneros. Tem sido uma experiência incrível que me motiva cada vez mais como autor brasileiro. 

Deixo aqui meu grande apreço e admiração pelos escritores: Bruno Ribeiro (Porco de Raça), Fernanda Castro (Mariposa Vermelha), Paola Sivieiro (O Auto da Maga Josefa), Emanoel Ferreira (Crimes Mágicos), PJ Pereira (A Mãe, a Filha e o Espírito da Santa), Felipe Saraiça (Para Onde Vão os Suicidas), Vitor Martins (Um Milhão de Finais Felizes) e Nanuka Andrade (O Ladrão de Destinos). 

 


Palavra & Verso - Você escreve de maneira intuitiva? Como é o seu processo de busca por aprimoramento? 

Vinícius Dramoro - Quando eu estou colocando a mão na massa eu acabo sendo bem mais intuitivo, mas invisto muito em planejamento e construção de mundo e personagem antes disso. 

Sempre que eu tenho uma ideia, eu passo logo ela para o papel e começo um processo de planejamento. 

O primeiro passo é entender a pensata da minha história, ou seja, qual é o assunto que eu quero desenvolver por trás de tudo que eu imaginei. 

O segundo passo é uma entrevista, por assim se dizer. Fazer perguntas sobre o mundo, personagens e enredo que eu imaginei, como por exemplo “quem é meu protagonista? Como ele se conecta com a minha pensata? Por que ele é desse jeito? O que o levou até aqui?” Descobri que fazer essas perguntas ajuda a criar personagens e cenários mais reais, fazendo com que a história toda fique mais bem amarrada e com muito mais sentido. 

Depois disso, crio arcos dramáticos para os personagens-chave, ou seja, imagino quem eles são, o que eles querem e o que vai acontecer na história para que eles tenham um desenvolvimento. “O que eles vão ter que sacrificar para conseguir o que querem? Ao conseguir, ou ao falhar, em quem eles vão se tornar?” Depois começo realmente a escrever no papel (a mão mesmo), transcrevendo para o word depois e polindo a história. 

Devo dizer que escrever a mão e à caneta tem sido uma benção. Pois ver ali tudo que eu risquei e quis mudar me ajuda a ver mais claramente como eu realmente gostaria que minha escrita fosse, e qual caminho para chegar até ela. 

Por fim, quando consigo terminar um arco dramático, analiso e planejo o próximo e vou assim até finalmente ter cumprido a missão daquela história. Cansa muito fazer todos esses passos, mas dividir em pequenas metas assim tem feito com que eu me sentisse capaz de escrever qualquer história. 

 


Palavra & Verso - Ainda falando sobre o seu processo de criação, quais são os desafios diários de ser escritor? 

Como lidar com a procrastinação, o medo de não corresponder às expectativas. Como vencer os bloqueios criativos? 

Vinícius Dramoro - Para ser honesto, arranjar tempo é o maior desafio de todos, porém, sempre dá para escrever um pouco todo dia pelo menos. 

O outro grande desafio é filtrar quais histórias devem ser escritas. Nem tudo que eu imagino tem que ir para o papel, e quando eu faço o processo de planejamento, quando eu entendo o que eu imaginei, consigo filtrar o que realmente se encaixa e me instiga e o que não seria apenas legal de ler, mas não de escrever. 

Sempre recomendo essa etapa do planejamento, ela ajuda muito a não procrastinar porque você foca na etapa que você está naquele momento e não fica paralisado pela pressão de ter o livro todo pronto na sua cabeça logo de cara. É uma ótima maneira de se vencer os bloqueios criativos. 

  


Palavra & Verso - Qual você acha que é a importância da música em um livro? Você gosta de ouvir música enquanto escreve? 

Vinícius Dramoro - Depende muito da história, mas eu pessoalmente sempre escrevo ouvindo música. Geralmente música instrumental, pois tenho TDAH e se tiver letra eu viajo na maionese (risos). Costumo selecionar músicas que tenham a mesma vibe das cenas que eu estou escrevendo e assim me coloco no clima certo na hora da escrita. 

Quando não estou escrevendo, mas estou andando ou pegando um ônibus ou algo assim, aí então ouço músicas com letras, tento me colocar no lugar do personagem e criar uma playlist da vida dele. Sempre tenho boas ideias nesses momentos e me conecto mais com as personagens. 

Uma curiosidade, quando eu imaginei Cása de Mágoas, ouvia muito a versão do Tiago Iorc de Tempo Perdido, era como a abertura da “série” que eu criei na minha cabeça. 

Além disso, quando eu estava escrevendo o livro, eu ouvia várias vezes a música “Debussy - Clair de Lune” tocada ao contrário, pois imaginei algumas cenas com essa música ao fundo dessa maneira. Acabei tendo vários pesadelos, mas valeu muito a pena. 

 


Palavra & Verso - De onde veio a inspiração para o seu livro de estreia “Casa de Mágoas”, e como surgiu a ideia do título?  

Vinícius Dramoro - Eu queria escrever uma história sobre uma casa assombrada, mas não queria ir pelo óbvio. Queria a minha versão desse gênero. Lembro que na época eu gostava muito de ver a Maldição da Casa Hill, uma adaptação da Casa da Colina, e lembro de uma frase que me marcou muito. 

‘Fantasmas são culpa, fantasmas são segredos, fantasmas são arrependimentos e fracassos. Mas, muitas vezes, um fantasma é um desejo.” 

Isso ficou comigo e me fez ter a ideia que os únicos “fantasmas” que realmente podem nos afetar são aqueles a quem damos abrigo. As mágoas que moram em cada um de nós e que nós não conseguimos esquecer ou superar. Ver a mim mesmo como a casa para os meus próprios horrores me deu inspiração tanto para o enredo quanto para o nome “Casa de Mágoas”. 

 


Palavra & Verso - Como foi o processo de criação dos personagens principais que compõem a obra? 

Vinícius Dramoro - Eu comecei pelos nomes. Sou daqueles escritores que não escolhe os nomes dos personagens à toa. Ícaro, o personagem principal, tem uma jornada paralela ao do mito grego de mesmo nome. 

Síbilim, uma personagem trans que detém uma das maiores importâncias da história, tem a inspiração na palavra em inglês “sibling” que pode significar irmão ou irmã. 

E até mesmo os gêmeos Caio e Aila têm nomes cujos significados remetem às suas personalidades ou traços que eles têm. 

Assim como pensava nos nomes, também pensava nos destinos que eles teriam e como cada um se conectava com a trama principal. Eu adoro histórias de terror com crianças, então é claro que dei uma atenção especial aos gêmeos, Caio e Aila. Alguns leitores acham que eu fui um pouco cruel, e eu concordo. Afinal, escrevi algo que eu mesmo gostaria de ler. 

Já o protagonista, Ícaro, é alguém que tanto investiga o mistério da história quanto o mistério em si. Então planejei os pontos principais sobre ele, mas com muitos espaços para que eu fosse descobrindo quem ele era junto com meus leitores. 

 


Palavra & Verso - Como você sente que foi a recepção da obra, por parte dos leitores? 

Vinícius Dramoro - Eu gostei muito da maneira como ela foi recebida. Tive feedbacks muito positivos, sempre com um apontamento ou outro, dicas e direcionamentos que eu prezo muito e que levo comigo para projetos futuros. No geral, eu fiquei muito realizado ao ver que meus leitores conseguiram ter a mesma sensação que eu tive ao escrever a história, que eu consegui os afetar com as partes que mais me custaram escrever, e os surpreender com as partes que nem eu mesmo sabia que estariam na história. 

 


Palavra & Verso - Para você, qual o ingrediente que não pode faltar em um livro de Terror / Suspense? 

Vinícius Dramoro - Eu diria que não pode faltar uma conexão entre os leitores e os personagens. Personagens de histórias de terror muitas vezes têm destinos cruéis, e é difícil para um leitor se importar com o que acontece com eles, ou até mesmo torcer por eles, se não há uma conexão. Investir na construção de personagens e dar momentos de vulnerabilidade a eles é essencial. 

Também diria que a simplicidade é algo que pode fazer a diferença. Pequenas e simples coisas fora da ordem comum são mais do que o suficiente para causar medo ou incômodo. Nós nos assustamos mais, ou ficamos mais tensos, ao ler algo que podemos imaginar acontecendo conosco. Claro que o gênero de terror pode ir do realista ao fantástico, meu próprio livro faz isso, porém, sempre é possível usar os detalhes simples para afetar o leitor. 

Por último, eu diria que é importante não ter pena ou escrúpulos. Não tenha medo de dar o destino aos seus personagens que você acha certo. Não seja “bonzinho” com eles, pois as melhores histórias de terror e suspense são aquelas que trazem a sensação de que ninguém está seguro, nem mesmo os protagonistas, e de que a morte não é o pior destino. 

Não se esqueça, a história precisa ter consequências. 

 


Palavra & Verso - Você tem muitos projetos em mente? Pode falar sobre algum deles? Fale um pouco sobre sua trajetória literária. 

Vinícius Dramoro - Tenho um trilhão de projetos em mente. No momento estou escrevendo mais sobre três deles. 

Um diverge muito do gênero da Casa de Mágoas, pois é uma história sobre fantasia urbana com romance lgbt e guerra entre facções criminosas. Vai ser bem sangrento, mas não será exatamente de terror. 

As outras duas histórias já se aproximam mais, uma sendo sobre uma mitologia que tem as causas da morte como deidades. Essa eu vou levar mais tempo criando, pois preciso investir muito na criação de mundo. 

A terceira história já está “pronta” e se passa no mesmo universo da Casa de Mágoas. Fala sobre um menino que consegue ouvir os segredos e sentimentos das pessoas e é abusado fisicamente por conta disso. Um dia, sua mãe desaparece e ele foge de casa, tentando usar o seu dom para ir atrás dela. 

Essa história está pronta e se chamará Aquele Que Ouve, porém, eu a escrevi antes de aprender algumas técnicas e processos que eu utilizo hoje. Quero a reescrever e ter muito capricho com ela antes de a apresentar a alguém. Apenas meus leitores betas a verão por enquanto. 

 


Palavra & Verso - Gostaria de deixar um recado de motivação para novos escritores continuarem a buscar por seus sonhos? 

Vinícius Dramoro - Sejam humildes e escrevam algo que você gostaria de ler. 

Escutem seus leitores, pois quem escreve, escreve para outra pessoa ler, então não faz sentido achar que todas as críticas, construtivas ou não, são apenas uma questão de gosto ou que o leitor “não leu direito”. Assuma o espaço de crescimento que você tem. Seja curioso e receba qualquer feedback como uma oportunidade de se tornar cada vez melhor e escrever histórias que você nunca imaginou ser capaz.  

Seja o seu próprio leitor. Não fique apenas tentando descobrir que tipo de história está na moda ou qual modelo de escrita é o mais usado. Estude, aprenda, teste, experimente, mas sempre se lembre que o seu primeiro leitor é você mesmo. Divirta-se com a sua própria escrita. Escreva uma história que você mesmo fique fascinado. Com o tempo, outras pessoas também irão se apaixonar pelo que você escreve, mas o primeiro tem que ser você.



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