Uma noite na boate Imperium com Nickolas de Rosso

"Se tem uma coisa que eu aprendi é que todos nós somos feitos de histórias, e para mim, não há profissão mais linda no mundo do que a daqueles que as contam." — Nickolas de Rosso

Nickolas de Rosso é nascido e criado na cidade de Curitiba, e desde pequeno possui uma fascinação pela magia. Formado em Design Gráfico pela PUCPR, ele trabalha atualmente no ramo de marketing digital dentro do Grupo Positivo, enquanto nas horas vagas, lê romances históricos e estuda grimórios de ocultismo para práticar a arte da bruxaria moderna.

Adepto de algumas das crenças da wicca, ele se considera um bruxo solitário e futuro mestre das runas nórdicas. Inspirado por grandes autores de fantasia como Neil Gaimam e Eduardo Spohr, além de famosos ocultistas, tais como Raymond Buckland, Deborah Lipp e Janet e Stewart Farrar, ele escreveu Imperium, seu primeiro romance.

Dando sequência para nossa série de entrevistas com autores da Palavra & Verso, trazemos aqui um pouco da inspiradora trajetória literária de Nickolas, bem como suas inspirações, seus próximos livros, etc. Confira:



Palavra & Verso - Como é a sua rotina de escrita? Você estabelece metas para si mesmo?

Nickolas de Rosso - Normalmente eu não consigo encontrar muito tempo livre para escrever devido a minha rotina de trabalho, mas sempre que consigo ter algum momento de inspiração, a primeira coisa que faço é correr para o computador e digitar. Às vezes, quando não consigo fazer isso, eu anoto tudo que posso no meu “caderno de sonhos” (que é o meu compêndio com todas as ideias e sonhos que tive com relação ao livro que estou produzindo). No sentido de metas, eu gosto muito de tentar estipular metas mensais ou anuais como: “Neste mês eu termino este capítulo/conto, heim?” ou “Para este ano quero terminar o livro e começar um novo”. Usualmente eu consigo cumprir essas promessas, pois adoro manter as criações fluindo.



Palavra & Verso - Fale um pouco sobre a literatura fantástica, e qual é a importância dela em sua vida como leitor e escritor.

Nickolas de Rosso - Eu lembro até hoje que o primeiro livro de fantasia que eu li foi a saga do “Deltora Quest” da Emily Rodda, seguido pelos primeiros livros do “Percy Jackson” do Rick Riordan. Depois que li essas histórias eu fiquei tão apaixonado por livros que nunca mais consegui largar, tanto que o gênero de “fantasia urbana” passou a ser o meu estilo literário preferido desse ponto em diante. Desde pequeno, eu sempre fui ligado ao fantástico e a magia, isso por conta dos filmes e animações que eu gostava de acompanhar nessa idade, mas tudo só se intensificou quando virei um “rato de biblioteca” na época do colégio (risos). Foi por conta da literatura fantástica que eu descobri que amava imaginar mundos diferentes do meu e, principalmente, que amava ainda mais idealizá-los e dar vida a eles, fazendo com que fizessem parte de um lado secreto da realidade que estamos inseridos. Por isso que devo muito aos grandes autores de fantasia, pois são a minha maior inspiração de vida.



Palavra & Verso - Quais são os seus escritores favoritos, bem como os autores que influenciam a sua escrita? Cite alguns livros que você indicaria para nossos leitores.

Nickolas de Rosso - Autores favoritos eu tenho vários, mas os dois que estão no meu coração são o Neil Gaiman e o Eduardo Spohr (falando nisso já conheci ele pessoalmente e ganhei um autógrafo lindo haha quase desmaiei). O Eduardo foi o que me inseriu completamente no desejo de escrever, tanto que a minha primeira obra abordava muito da mitologia cristã e a temática de anjos e demônios (quem sabe um dia, depois que eu consertar algumas coisas, vocês possam dar uma olhada nela). Os livros dele como o “A Batalha do Apocalipse” e a trilogia do “Filhos do Éden” são maravilhosos e indico para todos que querem conhecer mais um ótimo autor brasileiro de “fantasia”. E falando sobre esse gênero, é impossível não incluir o Gaiman, pois o estilo dele de escrita e a construção de universos foi o que mais me inspirou para o “IMPERIUM”. Os livros dele que eu mais amo são “Lugar Nenhum”; “Deuses Americanos” e a HQ completa do “The Sandman”. Outro autor que me inspirou muito também foi o Lev Grossmam com a trilogia do “The Magicians” (a série também é ótima!). Para algumas aplicações práticas de magia no livro eu me inspirei nos autores dos grimório de bruxaria (como o Raymond Buckland; Deborah Lipp e Janet e Stwart Farrar) e de magia prática (como Thomas Karlsson; Jan Fries; e Peter Carroll). Recomendo os livros de todos eles para quem estiver interessado em praticar a arte!



Palavra & Verso - Em relação a escrever, como é o seu processo de busca por aprimoramento profissional? Existe algum ideal de escrita que você persiga?

Nickolas de Rosso - O ideal de escrita que eu busco (e que acho que a maioria dos autores procuram), é o encontro de um estilo próprio, seja do ato de escrever ou da criação de uma história. Esse seria o ponto máximo da carreira de um escritor (na minha mais singela opinião). Digo isso, pois percebo que o meu estilo atual parece beber do cálice de muitos dos meus autores preferidos, alguns que beberam de outros e de outros e assim por diante. Na verdade, acho que nunca vamos saber se algum autor já desenvolveu algum estilo próprio sem utilizar alguma base de referência para sua construção literária (mas posso estar me precipitando hehe). Normalmente, procuro me aprimorar buscando as referências de escrita que mais me atraem e que possuem uma adesão mais positiva do público-alvo em que ela trabalha. Depois disso, tento inserir a minha essência dentro deste modelo, desenvolvendo algo que se torne tão dinâmico para mim quanto para a pessoa que vai ler. Eu geralmente gosto de escrever algo do jeito que eu gostaria de ler em um livro, e isso ajuda bastante. Com o tempo e com mais experiência, espero conseguir desenvolver um estilo que as pessoas leiam e possam dizer: “isso é algo que o Nick escreveu, tenho certeza”. É um sonho que espero realizar em breve. :)



Palavra & Verso - Qual você acha que é a importância da música em um livro? Você gosta de ouvir música enquanto escreve?

Nickolas de Rosso - Assim como um bom filme ou série precisa de uma sonoplastia adequada e uma trilha sonora inspiradora, eu sou da opinião de que um bom livro também precisa ter sons e músicas para permitir uma imersão mais profunda e divertida durante a leitura. A primeira vez que li um livro com uma trilha sonora própria, foi o “Filhos do Éden: Anjos da Morte” do Eduardo Spohr, e achei uma ideia genial, pois realmente me inseriu dentro de cada uma das cenas de uma forma maravilhosa demais para ser verdade. Isso me fez adorar imaginar uma cena de livro ouvindo uma música característica para ela. Por conta disso passei a buscar por músicas que se encaixem na situação que estou criando, por exemplo: quando ouvi a música “You’re mine” da “Raving George e Oscar and the Wolf” a primeira coisa que pensei foi a boate Imperium, e toda a sua aura mística e misteriosa, algo sexy e sombrio ao mesmo tempo. O folk nórdico da banda “Wardruna” ou outras músicas ritualísticas foram muito inspiradoras para as cenas em que descrevia um feitiço ou cerimônia de magia, assim como alguns ritmos de balada e dança para os momentos mais cênicos e os épicos de batalha para os momentos de luta. Eu montei uma playlist detalhada dessas cenas para seguir na ordem cronológica da história. Vocês podem conferir no spotify por este link: https://open.spotify.com/playlist/58e0ZAMKLBebyrAYSCIraO



Palavra & Verso - De onde veio a inspiração para o seu livro de estréia “Imperium”, e como surgiu a ideia do título?

Nickolas de Rosso - Uma vez, quando ainda estava no Ensino Médio, participei de uma ação onde todos os alunos foram para a aula usando camisa e gravata. Nesse dia, nós tiramos uma foto juntos e quando vi aquela imagem eu automaticamente acabei fazendo um link com aqueles filmes e séries americanos (como “O Pacto” ou “Riverdale”) onde um grupo de estudantes acabavam se envolvendo em algum mistério macabro para resolver. Como sempre fui apaixonado pelo tema de magia e feitiçaria, surgiu a ideia de criar algo relacionado a um “coven” (um clã de feiticeiros), algo que acabou se desenrolando para o que o livro é hoje. O nome IMPERIUM na verdade não estava nos planos (risos), pois antes eu queria que o livro se chamasse “Salem”, já que a boate está localizada nessa cidade, em Massachussets. Esse nome remete bastante ao tema “bruxas” e “feitiçaria” nos Estados Unidos, porém, tive que buscar outro título por conta do seriado de TV e do livro do Stephen King que já se chamam “Salem”. Então, IMPERIUM surgiu do latim, que significa “governo”, como um espaço régio de influência e dominação, algo que a boate e o clã acabam trazendo no primeiro momento, mas que se transforma em algo relacionado ao “poder” e a “ascensão”, uma coisa que pode tanto nos corromper quanto nos salvar quando preciso.



Palavra & Verso - O que os leitores podem esperar do próximo livro dessa série?

Nickolas de Rosso - Muitas revelações, novos segredos e um tipo mais profundo de magia. Estou na expectativa de que a sequência seja ainda mais sombria e surpreendente do que o primeiro livro, pois agora Lucian estará enfrentando uma escuridão muito maior do que imagina, algo que, gradativamente, o estará levando a loucura. Além disso, estou fazendo várias pesquisas para desenvolver uma trama mais concisa e uma experiência tão imersiva quanto possível. Abordarei algumas referências bem interessantes da mitologia nórdica e eslava, além de levar a história para lugares ainda mais místicos. Quero trazer também um desenvolvimento maior na relação entre os personagens, principalmente entre o Lucian, o Cristofer e a Katherine. Muitas surpresas estão a caminho! Espero que possa compartilhá-las com todos em breve.



Palavra & Verso - Em “Imperium”, conhecemos muitos lugares repletos de magia e poder. Fale um pouco sobre como foi criar esses lugares fantásticos, como a boate que dá nome ao livro, e como foi a ideia de inserir um clã de feiticeiros.

Nickolas de Rosso - Quando tive as primeiras ideias para o livro, eu já estava me afeiçoando com o ocultismo, e queria inserir algo assim nessa nova história, já que sempre fui apaixonado pela figura das bruxas e a aura mística que as envolve. Na época, eu já havia finalizado o meu primeiro livro, mas estava ficando um pouco desconfortável com a continuação dele, pois comecei a me cansar em seguir aquele modelo de história “clichê” com um herói nobre e incorruptível, já que isso tirava quase toda a humanidade dele. Por isso queria abordar algo que fosse mais "maléfico" por assim dizer, um grupo de personagens que se envolvessem com a parte sombria das coisas, e na bruxaria isso poderia se tornar interessante. Dessa forma, um clã de feiticeiros me pareceu algo que valeria a pena investir. Com relação à boate, eu queria que toda a aura da história estivesse relacionada com os tabus da sociedade, coisas como a sexualidade, o submundo, a magia, o satanismo, etc... Então uma amiga me deu a ideia de fazer a história desse clã de feiticeiros se passar em um clube noturno, uma boate, onde essa ideia de sexualidade estaria em pauta e eu pudesse unir todos os outros princípios que estava buscando abordar. Desse ponto eu comecei a me recordar de algumas referências que me inspiraram totalmente para a criação do lugar, como o “Clube Meia-Noite” no filme do Constantine; a mansão do Macon, no livro “Dezesseis Luas”, ou o bar da Chloe no filme “O último caçador de bruxas”. Esses lugares formaram a base para a construção da Imperium em alguns aspectos. O mais curioso é que enquanto estava pesquisando sobre a cidade de Boston, acabei encontrando um prédio muito semelhante a fachada que havia imaginado para a boate. Tanto que esse edifício foi o que o @gcbellfox desenhou na capa! E que ficou linda demais!



Palavra & Verso - O que representam as runas que estão na capa e na parte interna do livro? Fale um pouco sobre a influência da mitologia nórdica na sua escrita.

Nickolas de Rosso - As runas na capa são os algarismos do famoso Futhark nórdico, a escrita que os povos daquelas regiões usavam para entalhar em pedras, armas, escudos, ossos, entre outros artefatos, já que o ato da escrita em si não era muito difundido por conta da tradição ser transmitida oralmente. As runas na capa estão na ordem convencional do futhark original que, para alguns estudiosos, é chamado assim por conta das primeiras letras presentes: Fehu; Uruz ou Ur; Thurdaz ou Thurs; Anzus; Raido; e Kenaz ou Ken. Em alguns casos, há aqueles que acreditam que a ordem original comece pela runa Ur e por isso seja Uthark, mas isso fica para outras discussões (risos). De acordo com o mito nórdico, nove desses símbolos foram descobertos por Odin quando este se pendurou no tronco de Yggdrasil, a Árvore do Mundo, por nove dias e nove noites. Seu auto sacrifício ocorreu pela busca por conhecimento e por uma magia superior, tanto que ele aprendeu nove feitiços ao vislumbrar as runas entre os galhos da árvore. No paradigma da bruxaria, as runas possuem um grande poder, tanto que costumo usá-las como oráculo para divinação (que é algo que fazemos com o Tarot) e também para prática mágica em geral. Por conta desse meu fascínio e estudos em cima do assunto, eu quis tentar unificar esse sistema mágico dentro do livro e por isso as runas passaram a desempenhar um papel essencial na narrativa. Alguns feitiços realmente podem ser feitos na vida real com elas (claro que você não vai evocar uma bola de fogo haha), mas é claro que na história eu quis deixar isso mais visual. Busquei trabalhar bastante com alguns dos elementos da mitologia nórdica e celta na minha escrita, mas vou utilizar ainda mais na continuação, pois além dessa ser a minha mitologia preferida ela é também muito rica e traz muita inspiração para o universo fantástico. Recomendo muito!



Palavra & Verso - Como você configurou os personagens do universo do livro?

Nickolas de Rosso - Foi uma coisa que já havia planejado quando estava construindo o esqueleto da história. Antes de começar qualquer projeto eu gosto de anotar todas as ideias que vem num caderninho que gosto de chamar de “Caderno do Sonho”. Os personagens da Imperium nasceram todos de algumas inspirações que tive, inclusive as suas classes e poderes. Uma delas foi o filme “Heróis” (“Push” no título em inglês) em que cada personagem pertencia a uma classe de poderes e os usava de alguma forma. Eu quis me aprofundar nisso e colocar até um pouco mais de detalhes e subdivisões nesses modelos. Os personagens passaram a ter personalidades que combinassem com os seus dons, mas admito que acabei me inspirando em algo um pouquinho mais complexo e que acabou surgindo sem querer. São 13 salenos vivendo na Imperium, uma alusão aos 12 apóstolos e mais o Cristo. Os simbolismos disso eu deixo por vossa conta (risos). Mas acho que desde o primeiro momento eu já queria que cada personagem tivesse a sua própria peculiaridade, algo que os deixaria cativantes e apaixonantes, bem como eu gostaria que fosse se estivesse lendo ou vivendo uma história assim.



Palavra & Verso - Você tem muitos projetos em mente? Pode falar sobre algum deles? Fale um pouco sobre sua trajetória literária.

Nickolas de Rosso - Tenho muitos projetos futuros planejados, alguns que já até deixei preparados para quando terminar a saga dos salenos. O próximo da lista ainda vai abordar uma temática fantástica, porém menos intensa do que o Imperium, já vai ser trabalhada em contos. Contudo, não planejo me basear apenas na fantasia (mesmo que tenha uma pequena epopeia sobre isso nos planos), mas também quero trabalhar em um romance futurista (bem na onda Cyberpunk); algumas ficções mais cotidianas (à la “As vantagens de ser invisível” ou “Me chame pelo seu nome”), e até um policial e de terror. Com relação a minha trajetória, eu já gostava muito de escrever desde pequeno, mas nunca havia conseguido finalizar nada, até eu finalizar o meu primeiro livro de aventura aos 16 anos, mas mesmo tendo registrado os direitos autorais eu não tive muito sucesso com a publicação dele, pois está com alguns erros históricos que pretendo consertar. Então eu segui com a continuação dele, mas acabei parando quando me inspirei para escrever o Imperium. Após terminar esse, eu montei um pequeno livro de contos, baseado nas histórias de algumas pessoas que conheci durante a vida. Eu o utilizei, principalmente, para a minha apresentação do TCC na faculdade. Ainda quero acrescentar mais algumas histórias nele e espero que logo ele também esteja digno para a publicação! Meu sonho é conseguir publicar todas as histórias que tenho em mente, nem que seja só para poder conversar sobre elas com as pessoas e os amigos.



Palavra & Verso - Gostaria de deixar um recado de motivação para novos escritores continuarem a buscar por seus sonhos?

Nickolas de Rosso - Se tem uma coisa que eu aprendi é que todos nós somos feitos de histórias, e para mim, não há profissão mais linda no mundo do que a daqueles que as contam. Escrever e narrar é a forma mais perfeita que encontramos para preservar uma memória e permitir que nos tornemos imortais, pois, uma vez que nossas palavras são registradas, nós passamos a ser lembrados pelas pessoas e assim jamais seremos esquecidos. Uma história também pode marcar uma pessoa e mudar a sua vida para sempre, pois são com elas que encontramos a nossa inspiração e a fuga que nos permite suportar a realidade quando estamos nos nossos momentos mais difíceis. Por isso eu digo, não abandonem as suas histórias, pois elas possuem um traço importante de vocês, e é esse pequeno pedacinho que importa para transformar o nossa vida! Os seus sonhos são o que constroem o futuro, por isso jamais os ignorem. Escrevam! E criem um mundo mais belo para todos nós. Obrigado por existirem! <3


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